Depois de ter passado 40 dias no deserto esvaziando as malas, vejo mais claramente o que permaneceu. Deixei lá coisas importantes, mas restam ainda, algumas coisas que precisam ser retiradas para deixar a mala ainda mais leve, como deve ser. Outras coisas ainda precisam ser colocadas. Em alguns momentos, penso no que faltou, mas prefiro pensar no que já foi feito. E este é o ponto importante que acabei me deparando nos últimos tempos. Estava dando mais força para o que faltava, e assim vivia uma eterna angústia de insatisfação permanente. Parece ser este um velho hábito do ser humano, que nos leva muitas vezes a perder a oportunidade de saborear as pequenas conquistas já efetivadas.
Passei estes dias todos pensando num teste psicológico que fiz. Num dos desenhos propostos, eu fiz uma bicicleta. Eu desenhei uma bicicleta faltando um pequeno pedaço. Da para acreditar?. Além disso, não havia ninguém dirigindo, o selim estava desocupado.
A bicicleta para ser movimentada, precisa da nossa força humana. Ela é necessária para dar início ao movimento. Geralmente as primeiras pedaladas exigem de nós uma força maior, mas depois é como se o movimento ganhasse sua própria cadência. Durante o percurso é preciso estar atento, mesmo quando se sabe a direção a ser tomada, pois obstáculos certamente surgirão. Muita coisa nova virá pelo caminho, outras já bem conhecidas estarão presentes, mas não podemos achar, com nossa arrogância, que já sabemos exatamente o que fazer, pois às vezes, aquele velho obstáculo já conhecido pode nos balançar e até derrubar, se não mantivermos foco na estrada.
Por ser um veículo que exige o emprego de nossa força física, precisamos calcular bem a distância a ser percorrida a cada dia, pois senão corremos o risco de não conseguir percorrer todo o percurso, vencidos pelo cansaço. Por isso, é preciso dosar as energias, é preciso recarregar as forças. É preciso pensar com sabedoria para se ter a perfeita estratégia. Às vezes, os primeiros quilômetros podem parecer mais lentos, talvez devam ser, para que se possa percorrer todo o caminho.
Algumas vezes podemos achar que nada está sendo feito, que as coisas parecem estáticas. Outras vezes, outros ciclistas vão passar correndo por nós, e a aflição vai bater à nossa porta, na intenção de acompanhá-los. Mas o importante é que ela seja controlada, que seja apenas por um momento. Isto será inevitável, mas é preciso ter paciência, porque não sabemos a distância a ser percorrida pelo outro ciclista. Pode ser que seja a estratégia errada a seguir, ou seu caminho pode ser outro. O importante é confiar e continuar seguindo. Manter a estratégia ou mudá-la se for preciso. E sempre manter-se na estrada.
Com esta história de bicicleta, fiquei curiosa para saber mais sobre o ciclismo. Conversando um amigo ciclista, aprendi várias coisas muito interessantes. Este é um esporte que apesar de ter seus destaques individuais, exige um intenso trabalho em equipe. No ciclismo existe o sprinter, considerado o melhor velocista da equipe. Geralmente ele deverá permanecer no meio do pelotão, até abrir o caminho para conquistar a vitória no final da prova. O ciclismo tem também o passista, que muitas vezes assume a liderança da prova, para dar o ritmo. Seu papel é muito importante na estratégia de evitar a fuga dos concorrentes, ou o contrário também, na tentativa de realizar uma grande fuga. Pra dar o suporte à toda equipe, os gregários estão sempre à disposição, quanto à informações, alimentação, e todo o suporte que for necessário. Algumas vezes, estarão à frente para quebrar o vento. E depois de todo este esforço de uma equipe, as pontuações se dão em etapas de contra relógio com premiações por equipe e premiações individuais. Ou seja, é um esporte altamente estratégico, que destaca as forças individuais e coletivas.
Diante desta história curiosa sobre bicicleta, eu fiquei pensando: Quem são os ciclistas que estou convidando para pedalar comigo? Quem são os ciclistas que muitas vezes venceram a força do vento por mim? Quem são os ciclistas que já deixaram de ganhar por minha causa? Por quantos eu já cedi o meu lugar? Quantos ajudei a se tornarem vitoriosos? Preservo o equilíbrio do grupo? Ou só quero que os outros sirvam de escudo contra o vento?.
Recentemente nas minhas pesquisas sobre gênero, eu assisti um filme : Flor do Deserto, que conta a história da modelo Waris Dirie. Ela diz um ditado africano muito interessante "o último camelo anda tão rápido quanto o primeiro", ou seja, querendo ou não nós afetamos a vida das pessoas e elas afetam a nossa. Como estamos afetando a vida dos outros? Como os outros estão afetando a nossa vida? Estamos encontrando o equilíbrio nesta equação?. Conseguimos acessar a vida dos outros? Permitimos que os outros acessem nossa vida?. Gosto muito de uma frase de Bauman que diz " a abertura aos outros é a precondição da humanidade".
A beleza do ciclismo está neste trabalho em grupo. Quanto mais uma equipe se organizar, mais terá chances de vencer. Para isso acontecer é preciso ter empatia, se envolver, conhecer os seus limites e dos outros, mas isso só será possível se estivermos dispostos a andar de bicicleta juntos, porque é na jornada que vamos nos descobrir. Neste trabalho, conhecer os limites, é necessário apenas com o objetivo de saber como poderemos contorná-los, superá-los. Isso somente é possível se estivermos preparados para ajudar o outro não apenas apontando, mas contribuindo no processo de mudança, por outro lado também, temos que estar dispostos em aceitar críticas. Este processo vai exigir de nós muita coisa, pois teremos que aprender a perdoar e deixar de nos culpar sobre os nossos próprios limites, pois é preciso seguir em frente, caso contrário a culpa nos paralisa, e também nos afasta de pedir perdão a quem precisamos. O que vale é que a intenção de superação prevaleça. Numa atitude vencedora sempre existe a necessidade de mudar, de ampliar minha capacidade e de trabalhar meus limites.
Diante disto, o que estou esperando para terminar minha bicicleta? Falta tão pouco. Nesta jornada, como qualquer um vou colher, vitórias e derrotas. Mas o importante é fazer das derrotas uma alavanca para o sucesso.
Penso que o mais interessante em ter escolhido a bicicleta, é que para movê-la, preciso da minha própria força. Poderia ter desenhado um carro, um avião, mas a bicicleta me dará uma vitória mais gratificante porque vai exigir esforço e luta, junto daqueles que fazem parte da minha equipe.
Agora preciso me preparar, pois é hora de dar minhas primeiras pedaladas como alguém que deseja mudar o mundo. Neste processo, sempre vou precisar trabalhar as mudanças em meu mundo interior, acertar a quantidade de coisas na mala e estar preparada para sempre reorganizá-la quando necessário. Este será sempre um processo contínuo, sempre em movimento, como as pedaladas da bicicleta.
Dedico com carinho este texto aos que fazem parte da minha equipe, meu amigo J. pelas preciosas informações sobre ciclismo.
Oi,Ana mal sai da terapia já estou com sds...
ResponderExcluirAdorei seu blog.
Bjus, até semana!
Amanhã(08/12) é meu niver
Perla