Estou tão cansada de dizer não e, de manhã relembrar tudo o que comi no dia anterior. Contar cada caloria que consumi pra me odiar na medida no chuveiro. Eu vou comer. Não quero ser obesa. Só me livrei da culpa. E sabe o que mais? Terminamos essa pizza, vamos à partida de futebol, e amanhã, vamos sair e comprar jeans num tamanho maior.
Trecho do filme:Comer Rezar e Amar.
Nas minhas caminhadas pelo centro da cidade de São Caetano na hora do almoço, resolvi parar na banca de jornal para fazer uma pesquisa de campo em busca de respostas para essa obsessão pelo corpo feminino. Observei a capa de 41 revistas expostas nos principais lugares da banca de jornal, e pasmem: destas 41 capas 37, exaltavam rostos e corpos de mulheres, ou algum tema de destaque sobre dieta e comportamento feminino. Mal começo a pensar no efeito que isto causa às mulheres, e logo vejo a frente um cartaz gigantesco, exaltando mais um rosto bonito ou mostrando mais um corpo feminino “sarado”.
Hoje dizem por aí que a mulher tem a liberdade para realizar seus sonhos, que hoje ela sabe mais o que quer e cada vez mais ocupa o espaço na sociedade. Será? Será que esta ocupação do espaço não está acontecendo por necessidade do mercado?. Quais os sonhos que a sociedade tem sonhado por nós mulheres? Apenas sei que hoje não há uma conversa entre mulheres que não envolva uma dica nova de dieta, ou algum comentário sobre quilos extras a serem perdidos. E assim foi plantado no inconsciente coletivo feminino o desejo em alcançar uma beleza física invejável.
Fiquei pensando o porque desta obsessão. Ninguém pode negar que ter beleza física abre muitas portas. Então imaginei que esta questão está intimamente ligada, intrínseca à outra questão: ao PODER.
A busca pelo poder passa por diferentes caminhos quando tratamos da questão de gênero. Para os homens esta via pode ser alcançada através de cargos de alto escalão nas empresas ou por cargos políticos. Já em relação à mulher, historicamente sempre foi muito comum a busca do poder via beleza, desde os tempos primórdios da realeza. Hoje basta observar quantos políticos ou executivos, tem esposas muito mais jovens e belas. Infelizmente é realidade.
Me lembro uma vez na praia onde estava com alguns amigos, o que aconteceu quando uma mulher passou desfilando seu corpo perfeito. Imediatamente um deles virou e falou para o amigo: “está aí uma mulher que a gente nunca poderá ter”. A cada metro de praia mais homens a devoravam com o olhar. Ela representava um objeto de consumo de destaque na prateleira que jamais precisaria entrar em liquidação para ser comercializada.
E assim cada vez mais mulheres livres se tornam escravas de seu próprio corpo. E cada vez mais a indústria do silicone agradece. São mulheres e adolescentes que desejam seios maiores, bumbuns maiores, pernas e até panturrilhas maiores. São cada vez mais mulheres se entregando à cirurgia plástica com preocupação de continuarem interessantes para seus maridos, namorados.
Que contradição! Existem mulheres no Oriente Médio que sofrem até hoje com a mutilação de seus órgãos genitais e nós aqui no Ocidente, estamos pagando para sermos mutiladas em processos cirúrgicos. Conversando com outro amigo sobre relacionamentos ele me alertou: olhe a sua volta quantas mulheres bonitas tem. Pra que querer ficar presa com uma?.
Em um mundo onde as pessoas cada vez tem menos papo é o físico que atrai. E num mundo onde as pessoas cada vez mais não querem relações duráveis, a beleza física pode garantir variedade. E assim cada vez mais mulheres invadem as estatísticas dos transtornos alimentares, com o patrocínio da sociedade. Nas filas dos restaurantes vejo cada vez mais pessoas, comendo saladas e esquecendo dos outros nutrientes tão importantes para o corpo.
Este artigo vem para refletir um grande questionamento que comecei a fazer a alguns anos atrás: Como me livrar das guarras desta pressão social?. Eu vivia sempre com aquela sensação de uma eterna insatisfação com o meu corpo. Vivia sempre brigando com a balança para perder aqueles dois quilos que por mais míseros que fossem, seriam fundamentais para mudar minha numeração de calça e me incluir, segundo os padrões e normas sociais, na numeração pertencente as magras. Foi então, que decidi decretar a minha independência. Como o diálogo do filme eu me libertei desta culpa. Não foi um processo fácil. Parecia uma adicta tentando me libertar daquele vício. E por onde passava, mais revistas, mais anúncios na tv e nas ruas, me tentavam a voltar aos velhos hábitos. Foi preciso ter muita resistência, muita paciência e foi preciso trabalhar muito minha auto-estima frente ao espelho e aprender a me gostar. Este exercício mental, me fez perceber como de fato é difícil se libertar dessa armadilha tão real e inserida tão sutilmente no cotidiano feminino. Mas é preciso saber que este valor sutil pode derrubar até mesmo uma mulher de grande auto-estima. Seu poder destrutivo é imenso.
A mulher precisa se livrar desta culpa socialmente produzida para ser mais livre e independente. Hoje ser uma mulher com uma carreira promissora, não garante a felicidade, a liberdade emocional.
Quem já não passou por aquela situação de encontrar um ex-namorado com a atual dele e alguém soltar aquele comentário: - Como ele pode ter te trocado por essa mulher feia? À princípio ouvir isso gera um certo alívio, e tendemos rapidamente a utilizar esta justificativa sem precisar rever nossas atitudes, nossos erros, já que posso encontrar o contentamento necessário na simples resposta: ele tem mal gosto, não faz sentindo ele ter me trocado por essa outra. Por outro lado se a mulher for bonita, ninguém fará comentário algum, pois socialmente já está implícito e justificada a mudança, não há o que se justificar. Assim muitas mulheres temem ser trocadas, mas ser trocadas por uma mais bonita, é muito desgosto, muita frustração a ser trabalhada. E o pior: a mudança é aceita naturalmente pela sociedade.
Nós precisamos muito mais do que uma salada e um frango grelhado para nutrir nossos corpos. Estamos numa sociedade de almas desnutridas. Um belo corpo pode atrair um homem mas um parceiro de vida é outra coisa. Pra mim uma mulher poderosa é aquele que come um pedaço de bolo de chocolate e ainda repete se tiver vontade sem fazer cerimônia ou algum tipo de comentário sobre dieta. É aquela que se dá esse prazer sem culpa. Mulher poderosa é aquela que faz dieta pra cuidar de sua saúde. Um corpo melhor é apenas consequência e não obsessão. Mulher poderosa é aquela que deseja ser para alguém, e não um objeto que alguém deseje ter.
Quanto aos homens, alguns tão inteligentes, só posso lamentar por ainda fazerem comentários tão preconceituosos. É preciso rever tais atitudes. O excesso da exaltação da beleza feminina está virando problema de saúde pública. Está adoencendo os relacionamentos. Pois no dia a dia convivemos com a personalidade de alguém, o corpo passa a ter papel coadjuvante.
Escrevo com a esperança de quem sabe, por exemplo, a próxima vez que formos fazer uma promessa, que possamos estar mais disponíveis para ajudar, ou rezar mais. DEUS já deve ter cansado de sacrifícios que envolvam chocolate, doces, churrascos e bebidas alcoólicas. Pare de tornar aquilo que você gosta num eterno vilão. Espero com este texto que muitas mulheres inteligentes que conheço enfrentem-se no espelho. Que possam olhar para si e encontrar a coragem para admirar suas rugas, cicatrizes, celulites e estrias, pois esta imperfeição é externa, feita de pele. Tenho esperança que esta mudança nos leve a desejar a mudar as imperfeições que carregamos na alma. Que possamos gastar mais tempo cultivando idéias e não os músculos. E enfim, espero contribuir para uma nova consciência feminina, que possamos lutar contra esta escravidão que insistem em nos impor. E espero que este texto possa atingir também aos homens que procurem mudar o seu padrão, para que homens e mulheres possam ser mais felizes.