terça-feira, 11 de outubro de 2011

Considerações sobre o PODER

Ao exercer o poder podemos utilizá-lo para dominar ou para servir.
Em nossa sociedade, nas relações de troca que estabelecemos, é evidente que o poder que vemos instituído é o poder para dominar.

Ao analisarmos a questão do poder, pela sintaxe, notamos ser de conotação solidária o poder para servir. Em oposição, notamos estar implícito no poder para dominar, valores altamente destrutivos e autoritários. Se parece ser uma briga de antagonismos da força do bem versus a força do mal, porque o poder para a dominação é o que funciona na nossa sociedade, já que gostamos de finais felizes (pelo menos nas novelas)?

Para começar a falar do assunto, me lembrei de algumas experiências em uma viagem feita em 2009 para a Inglaterra e Escócia.
Visitei o Centro Viking na cidade inglesa de York. O centro nos faz voltar no tempo. Passeando em um carrinho como num parque de diversão, entramos em cenários das cidades antigas, que reconstituem o estilo de vida das pessoas daquela época Medieval. Eles foram tão cuidadosos que até reproduziram o cheiro da cidades, que obviamente não possuíam saneamento básico, então já podemos usar da nossa imaginação olfativa. Ao final nos deparamos com uma vasta exposição, onde é possível revisitar o passado, conhecendo as ferramentas utilizadas nas batalhas medievais, moedas, vestimentas e várias outras facetas daquele momento histórico. Mas o que me chamou a atenção foram algumas reconstruções arqueológicas de restos humanos. Me lembro que havia um esqueleto, provavelmente, de um rapaz de aproximadamente 18 anos, que faleceu em uma das batalhas. O esqueleto apresentava vários ossos perfurados pelas espadas de combate. Era possível acompanhar em legendas, em detalhes, a descrição dos golpes que possivelmente o rapaz deveria ter sofrido na cabeça, pernas, braços, etc, etc, etc...... A minuciosidade de detalhes me chocou!
Jamais irei esquecer uma outra situação ocorrida no Castelo de Edimburgo na Escócia. Ao entrar em um grande salão, me deparei com um livro no centro, de espessura maior do que 03 bíblias em folhas de papel A4. Quando me aproximei para verificar, tratava-se de um livro que citava o nome das pessoas que haviam morrido nas Guerras. Meu coração ficou apertado. Ao olhar ao redor, pude perceber que não se tratava de um único livro, mas sim vários que não pude contar porque eram muitos, mas ao mesmo tempo, não iria conseguir contabilizar por ter ficado paralisada.
Nunca me senti tão próxima dos horrores da Guerra. Permaneci, naquele instante, em silêncio ao lado de minha mãe que também não ficou imune ao impacto daquele grande salão. Eram tantos nomes escritos naqueles livros, em letras tão miúdas.
Mas por que retratar esta história para falar sobre o poder? Porque ali foi um dos momentos da minha vida em que pude sentir a proporção da ganância humana. A força destrutiva do poder dominador.
Mas muitos de nós podemos pensar, que se tratou apenas de um período histórico já superado. Não foi o que vi no olhar de alguns ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, que passaram em desfile pelas ruas de Londres. Muitos deles mutilados. Mas ainda assim, muitos de nós podemos ingenuamente acreditar que foi um momento histórico já ultrapassado, que não existem mais guerras de tamanha proporção. As guerras atuais devem estar sendo travadas, em algum pequeno país do Oriente Médio.
Onde está a guerra no sistema capitalista?
Onde a luta pelo poder está sendo travada, em um momento histórico que declaramos, ser a época dos Direitos Humanos e da preservação ambiental?
A guerra atual pela luta do poder está acompanhando as características comportamentais do sistema capitalista.  A luta pelo poder dominador se apresenta para a batalha de forma altamente articulada, descentralizada, em processos especulatórios como nas bolsas de valores. Seus processos são altamente estruturados e desenhados estrategicamente, possuindo alto grau de escalonamento e sua informação é propagada de forma velada e sigilosa. Quem está por trás de tudo, não tem rosto, não tem nome, não tem nação, não tem uma identidade. Algumas poucas notícias abordam conflitos de forma rasa sem os fatores ideológicos e seus desdobramentos, apenas são citados dados estatísticos.
Existem tantos tipos de guerra sendo travadas neste instante. Todas elas acionadas pela sede de poder do homem. Muitas vozes estão sendo silenciadas neste momento, sem o destaque da mídia.
Mas porque o poder dominador é o que vem funcionando nesta sociedade?  
Em uma sociedade de exploração e produção de mais valia, não haveria outra forma possível de exercer o poder.
 Mas o que isso afeta em nossa vida?.
Em especial em nosso país, que carrega a herança genética historicamente construída, de se “levar vantagem em tudo”, vivenciamos vários dilemas diários, como por exemplo, se você necessita de um atendimento médico muito bom e de urgência, geralmente você precisará pagar por isso. Muitas vezes depender de uma marcação de consulta do SUS é um teste para a resistência física, outras vezes a doença passa. As discriminações, as controvérsias avançam não somente no atendimento, mas nas medicações disponíveis, nas técnicas de cirurgia utilizadas, porque se “é DE GRAÇA é melhor não reclamar e vai ter que esperar”, geralmente numa fila com vários papéis preenchidos para burocracias legais. Assim, em vários outros campos, aprendemos e reproduzimos a prática da barganha, tornando nossa vida uma mercadoria. Esse comportamento está tão intrinsecamente constituído em nossa sociedade, que qualquer forma nova de lidar com as questões é visto com estranheza. As vezes pedimos uma informação, e alguém já pega o telefone para arranjar aquela vaga especial para o amigo. E o senso comum diz: TODO MUNDO FAZ ISSO!!!.

Mas e o poder para servir?
O poder para servir está diretamente ligado a outro nível de valores como a: solidariedade, a fraternidade, a justiça. Valores que insistimos dizer em nossas rodas de conversa, que estão muito distantes de serem alcançados. E assim, no conformismo, vamos legitimando nosso comportamento retrógrado de aceitação passiva. Me lembro uma vez minha irmã contar que ao devolver um troco que lhe foi dado em excesso no cinema, o vendedor ficou atônito, espantado e disse que se pudesse lhe daria mais um ingresso de presente.
Mas então se o poder para servir é evidentemente superior o que lhe carece de ser implantado?
Para começar, ao apresentar suas propostas, que logicamente serão contrárias ao sistema vigente, não conseguem respostas, aderência, pois quem está no poder dominador ocupou à todos nós para reproduzirmos, sem ter tempo para pensar ou criticar, pois nos ocupamos em garantir o pão de cada dia. Além, obviamente de já serem possuidores da vantagem competitiva de estarem no poder, facilitando ações de articulação, através da criação de mecanismos para refrear estas ações revolucionárias, que ideologicamente acabam sendo vistas, pelo senso comum, como propostas muito romanceadas, utópicas, surreais.
Uma das barreiras mais difícies para se implantar soluções do poder servidor, é a perpetuação de um comportamento gerado pelo sistema capitalista, constituído pela barganha do valor de troca. E assim tudo na nossa vida vira mercadoria, até nossa saúde. No poder para servir não há troca de barganhas, há um despojar-se de si em favor dos outros, em especial os menos favorecidos. Garanto que isto não é um discurso religioso. Se cada um de nós pudesse vivenciar a experiência de ver alguém morrer de fome, nossa visão de mundo seria outra.
Junto comigo, caminha a esperança de um dia poder fazer mais. Quero que essa chama permaneça acesa, mesmo diante situações que parecem intransponíveis, não devemos ceder ao conformismo.
Esta é uma simples homenagem a muitas vozes que estão sendo silenciadas pelo poder coercitivo neste momento.
Mas existem tantas outras vozes, que podem gritar, mas silenciam-se mediante pequenas injustiças diárias que nos cercam, em prol de garantir suas pequenas e  exclusivas necessidades de consumo.