A observação de um simples fato cotidiano, me trouxe até essa reflexão.
Num dia comum de trabalho, minha amiga, uma senhora de 70 anos, encarregada de realizar alguns serviços administrativos, ao me cumprimentar com seu habitual bom dia, iniciou a conversa comentando à respeito de uma colega de trabalho, que estava passando por um dia muito difícil. Seu objetivo era expressar uma de suas idéias para animá-la, pedindo minha ajuda para também oferecer algumas palavras de conforto. Situação que parece comum ao nosso cotidiano. Mas o que de fato me chamou a atenção, é que eu havia acabado de passar (não existe outro verbo melhor para expressar o que literalmente acabara de fazer: “passar”) por essa colega de trabalho, sem ao menos perceber sua expressão de profunda tristeza naquele dia. Fiquei muito incomodada com isso!
Desde então, comecei a observar as atitudes das senhoras que trabalhavam conosco do projeto da 3ª. Idade. E descobri coisas muito interessantes. Estas senhoras sempre eram as primeiras a se dar conta de várias situações: de pessoas que faltavam no trabalho, pessoas que estavam com algum problema, ou estavam mais felizes, ou se alguém estava doente e sempre se lembravam de perguntar sobre nossos familiares. É claro que alguns fofoqueiros de plantão também sabiam destas informações, mas não com o viés daquelas senhoras, que demonstravam através de seu comportamento, atitudes de preocupação com o ser humano e não apenas uma constatação do fato.
Que mudança de geração é esta que está acontecendo?
Nossa geração vive uma verdadeira crise de identidade. A tecnologia transformou nossa forma de viver. Me posiciono à favor da tecnologia. Ela nos trouxe melhoras significativas em vários campos, vastos demais para serem abordados neste texto. Mas quero direcionar a atenção para um fator negativo. E a culpa não é da tecnologia, mas da forma como estamos nos apropriando da mesma.
Todos nós estamos sendo infectados, em nossas relações, por uma nova doença, que resolvi chamar de : TDAS – Transtorno de Déficit de Atenção Social.
Tudo que está sendo criado, de uma forma geral, é para acelerar algum processo, e isto está se refletindo em nosso comportamento. Todos nós estamos vivenciando na pele, alguns dos sintomas mais comuns experimentados no coletivo:
- superficialidade nos contatos.
Quem já não se pegou dizendo: - Eu lhe envio um e-mail para marcamos o almoço! Não aproveitamos para agendar, mesmo a pessoa estando na nossa frente. Por que já não resolver a questão?. Por que será que fazemos isso? Não é estranho? Mas assim o preferimos.
E quando resolvemos marcar um encontro com os amigos pela internet? Chego a conclusão que é muito mais fácil ligar do que ter que administrar uma alavanche de e-mails, que no final sempre nos deixam a dúvida se o encontro foi ou não marcado. Acho isso muito engraçado, preciso admitir! Se a tecnologia serve para acelerar, porque neste aspecto a aproveitamos para retardar o processo? Não sei o que responder à respeito deste questionamento.
- foco no individual e distanciamento do coletivo
Foi o que me levou a não perceber minha colega de trabalho. Estava preocupada demais com meus próprios pensamentos. E o foco no individualismo, tem criado problemas nas relações. Hoje conhecemos mais gente, mas estamos próximos de um número de pessoas muito mais reduzido. Não é estranho?. Não é a toa que perdemos muito da nossa capacidade de mobilização social.
- estar em movimento sem se importar com a direção.
Nossos passos são mais apressados, nossos dias mais repletos de atividades. Com a tecnologia criamos brechas possíveis para se ter mais tempo livre, mas agora temos menos tempo. Que contradição!
Poucas pessoas se permitem ao ócio para a geração de novas idéias. O ócio gera uma certa aflição na sociedade de hoje.
Ao invés de aproveitarmos as tecnologias para acelerar o processo de aproximação, parece que ela tem sido usada como ferramenta definitiva, num novo processo de dicotomia social artificialmente criado. E cada vez mais incrementado com novos sites de relacionamento. Aqui não culpabilizo os sites, ao contrário, os utilizo para muitas coisas boas em minha vida. E é isto que quero chamar a atenção: precisamos saber utilizar estas ferramentas. Pois tenho percebido que nos pequenos detalhes, estamos nos distanciando. E é disso que não podemos nos descuidar, pois esse distanciamento nos leva a adoecer. A solidão está aumentando de forma devastadora.
As formas de contágio deste novo transtorno também se refletem nas novelas, nos telejornais, nos outdoors, nas propagandas, na moda, estão expressas em versos musicais. Temos tanta informação que nada mais nos resta do que “passar” por elas. Até na arquitetura sentimos o reflexo desse nosso comportamento. Cada vez mais os espaços coletivos, são construídos em grandes conglomerados, onde milhares de pessoas podem transitar. E mais uma vez, as pessoas “passam” por nós apressadas. Mais edifícios estão sendo construídos, e assim, temos mais vizinhos, mas os conhecemos cada vez menos, à fim de garantir nossa privacidade. E as ruas, cada vez mais vazias, estão expostas à violência urbana. Criamos um grande problema geográfico.
A gravidade dessas novas formas socialmente criadas de se relacionar, estão aumentando os transtornos emocionais em todas as idades.
Como resolver tudo isso? É difícil de se responder. Mas tenho pensado muito no AMOR. Atendi algumas pessoas, que me surpreenderam com suas palavras. Ouço com uma certa freqüência, ser o maior problema não o transtorno mental, mas a falta de amor. Acredito ser o AMOR um remédio que pode curar este problema social, pois o AMOR nos aproxima.
O AMOR é um processo de construção sempre em movimento, representado por um conjunto de AÇÕES significativas, muito mais do que palavras simplesmente expressas em mídias eletrônicas.
Dedico este texto, com carinho, à minha amiga Marlene.