sexta-feira, 19 de agosto de 2011

DIÁLOGO EM PRESTAÇÕES

           Uma das coisas que mais gosto de fazer é jogar conversa fora com os amigos. Poder falar das crises existenciais, novos desafios, trocar opiniões, enxergar novos pontos de vista. Conhecer mais um detalhe do mundo das pessoas ou experimentar o imenso prazer de descobrir novos mundos, de conhecer novas pessoas que acrescentam novas coisas em nossas vidas.
Ultimamente aconteceram em alguns, infelizmente apenas alguns, desses encontros um fator muito inesperado e positivo, que já há tempos não ocorria: o celular foi totalmente descartado. Em alguns momentos ele tocou mas foi deixado de lado, acompanhado da frase: “mais tarde eu retorno”, em outros o celular nem apareceu em cima da mesa. Maravilha! Assim, o diálogo fluiu em seu ritmo próprio da linguagem, com tempo para processar as informações, com tempo para se elaborar respostas e com tempo para desfrutar com o outro, a imensa sensação da alegria de partilhar, acrescentar, trocar, vivenciar.
A maioria dos diálogos hoje em dia, são uma troca casual de curriculuns. É uma verdadeira disputa para saber quem : faz mais atividades, quem já visitou mais lugares, quem já foi em mais shows, quem trabalha na maior empresa ou tem o melhor cargo. Na sequência, acontece o “despejo” dos problemas existenciais, enquanto o suposto ouvinte está de fato em alerta, aguardando uma pausa na fala do outro para respirar, para despejar seus próprios problemas pessoais. E assim, a disputa passa a ser daquele que está vivenciando a maior desgraça. Ninguém sente alívio na conversa, pois não há interação, há apenas um “despejo” da maior quantidade de palavras possíveis por minuto.
Quem não sofreu uma brusca interrupção numa conversa importante por causa de um toque de celular?. Pois é, os diálogos parecem ser mais apressados nos dias de hoje. Perderam seu ritmo mais natural, e as palavras são pronunciadas na mesma entonação. Os diálogos já não parecem mais ser tão vivos de emoções. É verdade, as mudanças migraram até para a linguagem : as pessoas costumam falar mais apressadamente, e de tempos em tempos param para checar o visor do aparelho de celular, ou até enviar um SMS enquanto você está falando. Nossos celulares partilham a mesa, a refeição, e podem ser bons companheiros pois estão no ar 24 horas e não reclamam de nada. E assim, as nossas histórias são fragmentadas, o nosso diálogo acontece em prestações.
Hoje estar na companhia do outro é um ato revolucionário, assim como compartilhar o nosso tempo.
Vamos ousar conviver mais, amar mais, desejar mais.
Fico preocupada com o sentimento que vejo se perpetuar das pessoas tentando conhecer o máximo de gente possível com o pensamento: “o que vier é lucro”. Estamos mendigando atenção dos outros.
Hoje o processo ideológico construído e incorporado de forma natural pela sociedade, pressupõe um encontrar-se com o outro para destilar uma sequência de fatos e pouca troca de idéias. Funcionamos ao ritmo de propaganda tentando vender seu produto em aproximados trinta segundos.
  À nossa volta há mais história de que podemos supor. Mundos esses que passam apressados por nós nos corredores, nos andares, nos shoppings.
Quem sabe da próxima vez ao encontrar-se com os amigos, o celular deixe de existir pelo menos naquela hora. E assim, possamos redescobrir a sensação que só o encontro com o calor humano pode proporcionar.