Um dia destes, retornou à minha mente um questionamento antigo, sobre minha escolha profissional, e que enfim, sem esforço ou desgaste, a resposta apareceu naturalmente, no tempo certo. Quando a resposta é verdadeira, ela tem o poder de trazer conforto.
Me lembro do momento em que estava decidindo minha futura carreira. Por anos tinha decidido por uma profissão. Passei no vestibular, comecei o curso, mas sentia que ainda faltava alguma coisa. Tranquei a matrícula, parei para repensar. Foi quando descobri o Serviço Social, desconhecido pra mim até então. A identificação foi imediata. Fiz o curso e como costumo dizer, sou apaixonada pela minha profissão. Mas por que falar disto agora? Porque somente agora, depois de todos estes anos, descobri o que faltava na minha primeira escolha e o que foi que me atraiu para o Serviço Social.
A resposta está na força dos simples gestos. Descobri que a força e beleza da profissão do Assistente Social está no paradoxo, que permite ter embasamento teórico e capacidade de análise das conjunturas, mas que se rende aos simples gestos dos fatos cotidianos da realidade social. Esta é uma profissão que permite a vivência da simplicidade.
Minha atenção tem estado em alerta, voltada para os simples gestos nos últimos dias. Este é um tempo difícil pra mim. Sofro com a ausência de uma pessoa muito especial e de raro coração.
Tenho pensado muito sobre o processo de caminhar lado a lado. Neste caminho que é lado a lado, cada um tem seu próprio passo. Ao se caminhar ao lado, fica mais fácil ajustar o ritmo das passadas, apesar de cada um dar seus próprios passos. Às vezes um se adianta, ora o outro atrasa, o que é natural e parte integrante do processo. Por isso é necessário caminhar lado a lado de mãos dadas, pois assim, encontramos a cadência dos passos desta caminhada. Ora, o que é caminhar de mãos dadas senão o simples gesto de estender a mão ao outro?
Simples gestos tem uma força interior que nenhuma teoria pode expressar desmistificar, desvendar, pois eles são sentidos e não explicados. Um abraço tem o poder de curar mais de mil palavras erradas, ditas num momento de nervosismo, ou quando estamos magoados. Um beijo, um olhar, um sorriso. Até mesmo nas palavras se escondem simples gestos, porque mais importante do que se é falado, é como se é pronunciado. Quanta emoção as palavras podem nos passar e nós simplesmente sentimos?. Grandes problemas nossos seriam resolvidos se nos rendêssemos aos simples gestos. Na realidade acredito que são eles que fazem as relações sobreviverem. Não há muitas vezes o que se explicar. Não vale a pena desgastar-se em querer fazer isso. O que vale a pena é sentir.
Simples gestos tem rodeado meus dias. Tenho a felicidade de ter amigos que neste momento difícil se dispuseram a cuidar de mim, de responder ao meu chamado de ajuda prontamente. Pensei, pensei, por muitos dias. Mas resolvi prestar mais atenção em sentir. Ouvi muitas palavras de apoio de meus amigos, mas nenhuma delas conseguiu me dar o conforto dos simples gestos. Começo pela família. Minha irmã, com a correria do seu consultório, além dos preparativos para seu casamento, garantiu estar no ar 24 horas por dia, mas o que mais gostei foi ter passado uma tarde inteira com ela vendo filme. Ela me ofereceu o que mais difícil ela poderia me dar neste momento, o seu tempo. Sua companhia foi muito melhor do que todas as palavras ditas.
Logo à seguir a imensa discussão que infelizmente vivenciei, liguei correndo para minha amiga S. Acredito ter atrapalhado, ou atrasado bastante o jantar dela com o esposo em pleno feriado, mas ela agüentou comigo o primeiro impacto do que eu havia passado por mais de 1 hora no telefone. Todos os dias desde então no trabalho, ela sempre passa pela minha sala, pra dizer bom dia. Mas seu bom dia, revela muito mais as palavras não ditas, que posso sentir em sua expressão: - eu estou aqui, conte comigo!.
Minhas amigas queridas M. e F., que acompanharam todo o processo desde o início. Sempre me ofereceram o conforto de sua amizade, e mais uma vez, por mais que tentássemos identificar as causas, enxergar as sombras do ocorrido, nada me dava mais alívio do que poder contar com a companhia delas.
Minha amiga L. fez da proximidade geográfica um importante refúgio para o meu sofrimento. Abriu as portas de sua casa pra mim. Até o namorado dela M. cobrava dela ajuda, e ele acabou de me conhecer. Aproveitando a proximidade geográfica, combinamos um jantar no meio da semana, mesmo com nossas agendas super lotadas, o espaço foi criado. Decidimos fazer Espaguete à Carbonara. Levei a receita até a casa dela e começamos a fazer nossa janta juntas.
Enquanto o macarrão começava a amolecer na água fervendo, algumas amarras do meu coração amoleceram junto. O sal foi jogado e se dissolveu, junto com ele alguns ressentimentos. O bacon que já começava a fritar na panela, ganhava mais cor e sabor. Eu também parecia mais alegre, mais disposta. O creme de leite ao ser jogado no macarrão, deu liga. E eu também já começava a juntar alguns pedacinhos perdidos.
Minhas amigas todas tiveram a capacidade de se superar nas escolhas das palavras. Foram escolhidas as mais belas palavras, mas nenhuma delas foi capaz de alcançar o conforto fornecido pela força dos simples gestos. Viva o Espagueti a carbonara!!!!!.
L. e P. me ajudaram num processo importante neste momento: olhar mais pra mim, para os meus sentimentos. Obrigada pela paciência em me escutar, mais ainda pelo gesto da solidariedade e fraternidade.
Se dependesse apenas de mim, eu simplesmente tiraria toda dor, todo sofrimento daquele momento, com o simples gesto de um abraço e continuaria no caminho. Mas para um abraço acontecer, são necessárias duas pessoas. Por isso é tão importante atentar para que em nosso caminhar permaneçamos de mãos dadas. Nem sempre as pessoas do seu caminho vão querer permanecer nele, mas você pode, quando escolher caminhar com alguém, ser aquela pessoa que permanece de braços estendidos, esperando que o outro aceite seguir com você. Caminhar de braço estendido para o outro é uma missão muito difícil, uma vez tomada a decisão, irá lhe exigir um desprender-se, um despojar-se de si, sair de sua zona de conforto e arriscar o que hoje as pessoas já não querem mais: SENTIR. Quem está disposto a fazer isto no mundo de hoje? Vivemos em um mundo onde estamos acostumados a desistir facilmente das pessoas, e assim não trabalhamos nossas limitações, frustrações, traumas, medos e anseios. Tentamos encontrar pessoas que nos entenderão por completo, em especial nas relações de homem e mulher, que acredito serem as mais fragilizadas no mundo moderno. Ninguém é capaz de entender o outro por completo, nem nós mesmos, mas a chave está em ACEITAR O OUTRO. Mas quanto nós estamos dispostos em fazer isso? Quando vamos parar de dar força para os defeitos? Isso não significa ser ingênuo ou negligente. Mas se avaliamos e decidimos caminhar com alguém, é muito importante ressaltar mais as qualidades para que os defeitos não dominem o cotidiano e nos gerem mais problemas e desgastes emocionais. De uma maneira geral, todos nós temos esta tendência: viver pensando no que falta ser construído, mas isso não agrega. Lembremo-nos do que já temos. Assim podemos viver melhor e isso não é conformismo, é aceitar e desejar continuar construindo. Mais do que qualidades e defeitos é a força dos simples gestos que cultiva as relações.
Pode parecer para muitos uma contradição expressar esta vivência minha em palavras. Mas nas entrelinhas não me atentei para explicar sentimentos. Seria em vão. Escrever me trouxe alivio. Aprendi uma lição que senti a obrigação de compartilhar. É uma forma de transformar meu sofrimento em crescimento. Também é uma forma especial que encontrei de agradecer às pessoas queridas que me ajudaram, mas certamente esta não será a única. Estarei expressando através dos simples gestos do cotidiano. Porque agora Eu quero viver com mais Espaguete à Carbonara.!!!
RECEITA
( para fazer com os amigos, familiares. Faça com quem quiser mas faça junto).
Ingredientes :
- bacon à gosto
- 1 colher de sopa de manteiga
- ½ cebola ralada
- 2 latas de creme de leite
- 500 g de espaguete
- 3 gemas
- queijo parmesão ralado à gosto para salpicar
PREPARO
- faça o macarrão
- frite o bacon sem óleo
- frite a cebola com a manteiga
- adicione o creme de leite – misture bem
- acrescente as gemas com o fogo desligado e misture
- junte o creme ao macarrão + o bacon frito e cubra com o queijo parmesão
Ana, continue escrevendo! Além de fazer BEM pra vc Faz para os outros, também!
ResponderExcluirMuito legal sua iniciativa de compartilhar seu conhecimento! Também, aprendi transformar sofrimento em crescimento.
Lembrei do MBA em Telecom, quando falávamos da nossa formação, vc era a ET entre a maioria de Engenheiros, adm. e uns outros ET's advogados (rs)
BTW, obrigada pela receita! Vou tentar, de preferência BEM acompanhada!
Um forte abraço